Crônicas

Adalberto, O Invejoso

Dizem por aí que o Sr. Adalberto de Castro venceu na vida. Conforme seu obituário, esse dedicado empresário do setor têxtil aprendeu, desde cedo, o valor do trabalho. Ainda menino, começou a trabalhar como engraxate. Sem muito tempo para frivolidades, abandonou os estudos e foi tentar a sorte na cidade grande. Apesar dos inúmeros percalços, tornou-se um reverenciado empresário, dono de várias indústrias espalhadas pelo País. Para a opinião pública civilizada, um visionário empreendedor. Para seus bárbaros detratores, um capitalista sem escrúpulos.

Não se sabe, exatamente, o que levou Adalberto a tal precoce desfecho. Dizem que trabalhava muito. Era deveras devotado à administração de suas empresas. Sentia prazer em dar ordens a seus subordinados. Mas, nos últimos anos, os negócios já não iam mais de vento em popa. Por certo, tudo piorou desde que o atual governo tomou posse! Afinal, suas qualidades como gestor e administrador eram irrefutáveis. Com o tempo, as duplicatas acumulavam-se, os fornecedores exigiam a quitação de suas dívidas, os gerentes de banco, antigamente tão solícitos e atenciosos, já não o tratavam com a mesma deferência. Ainda assim, continuava a ser um distinto cidadão, pois aos aduladores de sempre interessavam menos os balanços patrimoniais de suas empresas do que o status de sua persona.

O que poucos sabiam, no entanto, é que Adalberto era um homem invejoso. Não tinha inveja de seus concorrentes, visto que nenhum deles dispunha do mesmo tino comercial que a sua intuição foi capaz de agraciar-lhe. Para surpresa até mesmo dos mais íntimos, o que seus penetrantes olhos escuros não revelavam era o ciúme que nutria das pequenas conquistas de seu primo Felisberto Leão. Homem simples, de temperamento tranquilo, com aquele olhar irritante de um bovino em engorda, Felisberto representava tudo o que era, simplesmente, inatingível para Adalberto. Tinham quase a mesma idade, costumavam brincar juntos quando crianças. Felisberto era daqueles medíocres que tão comumente conhecemos aqui e alhures. Não era bom nos esportes, não tocava nenhum instrumento musical, não sabia dançar. Mas teimava em ser feliz! E o pior: gostava de viver naquele fim de mundo! Não tinha grandes pretensões, não pensava no amanhã, não planejava seu futuro.

Esse comodismo indolente de Felisberto irritava, profundamente, Adalberto – pessoa inquieta, insatisfeita e gananciosa. Após a mudança deste para a capital, os dois parentes afrouxaram o laço de sua antiga amizade. Raramente se viam, mas o bem-sucedido empresário recebia, com certa frequência, notícias de seu primo por meio de sua irmã mais velha. Nada o deixava mais amuado do que um compromisso indelegável em sua cidade natal. Mas as suas origens teimavam em se revelar na curiosidade com que perguntava de seus antigos conhecidos. Como quem tentasse manter velhos sentimentos enterrados sob a fleuma de um rico homem de negócios, Adalberto lutava para manter uma certa distância de seu passado pobre e interiorano.

Tudo isso fora, enfim, desfeito quando a notícia da morte de Adalberto de Castro difundiu-se por aquelas duas cidades. Passado e presente convergiram para as exéquias daquele nobre senhor. Entre lamentos e lamúrias, suas qualidades eram ressaltadas e seus defeitos, ignorados. Todos queriam valorizar o tipo de relação que haviam tido com o falecido – não sendo Felisberto Leão uma exceção entre eles. Para o saudoso primo, Adalbertinho sempre havia sido seu melhor amigo. Esteio moral e financeiro da família Castro, a irmã e seu marido esforçavam-se, também, para mostrar aos alcoviteiros de plantão o quão irreparável seria aquela prematura partida. Mas, como tudo na vida, aquele espetáculo fúnebre chegava ao seu fim. As máscaras eram retiradas, o figurino era guardado, o cenário era desfeito – e o morto era enterrado.

De volta a sua pequena cidade, Felisberto se dirigiu, como de costume, ao boteco do Seu Manuel. Não querendo mais rememorar lembranças do querido amigo, já que as almas também devem descansar, resolveu abrir o jornal local para inteirar-se a respeito das novidades municipais. Para seu desgosto, o diário havia feito um grande especial sobre aquele filho ilustre. Que piegas, meu Deus! Sua impressão era de que o mundo havia parado para lamentar a morte de Adalberto! Mas já não era mais possível suportar tamanho luto! Basta! A vida exigia resignação e perseverança dos que ficavam! Sendo assim, após revisitar os tantos feitos empresariais do finado, atirou o jornaleco sobre uma das mesas e, entre dois goles de uma caninha, exclamou resoluto:

— E, além de tudo, aquele filho da puta era feliz! Também pudera! Com todo aquele dinheiro! – Era o desabafo de quem havia vivido sempre à sombra do primo famoso. A partir de então, liberto dos grilhões que o finado havia lhe imposto, nunca mais falou de Adalberto. Leve como uma pluma, sua mente e seu coração foram purgados da inveja que sempre sentiu do endinheirado parente.

Guilherme da Cruz Backes

Guilherme Backes é bacharel em Relações Internacionais pela UFSM e mestre em Ciência Política pela UFRGS. Gaúcho de Cruz Alta, atualmente reside na cidade de São Paulo. Estudioso de temas políticos e sociais, vê a Literatura não apenas como um refúgio pessoal, senão também como uma ferramenta para mergulhar mais profundamente nas entranhas de nossa sociedade. Escreve às quarta-feiras no Crônicas Cariocas

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